Estamos em período eleitoral e tenho a impressão de que nunca tivemos tanta "certeza" sobre tanta coisa. Nas redes sociais, principalmente, parece que todo mundo sabe exatamente quem está certo, quem está errado e quem merece ser cancelado. O curioso é que, com tantas certezas, estamos cada vez mais distantes de conseguir conversar. Parece que admitir que não sabemos alguma coisa se tornou quase um sinal de fraqueza, enquanto ter opinião sobre tudo passou a ser confundido com inteligência.
Tenho acompanhado discussões em que o posicionamento político de uma pessoa parece suficiente para definir quem ela é, o que pensa e até o que devemos concluir a seu respeito. Isso me faz pensar sobre nossa necessidade de encontrar explicações rápidas, de identificar a qual grupo alguém pertence e, a partir daí, acreditar que já sabemos o bastante.
Quando uma definição parece explicar uma pessoa inteira
Essa tendência de definir as pessoas a partir de uma única informação não aparece apenas na política. Em um encontro, conheci uma criança que me chamou a atenção pela inteligência, pela iniciativa e pela espontaneidade. Quando essas características foram elogiadas, a resposta de um familiar foi que a criança tinha TDAH.
Aquilo me fez pensar. Eu estava reconhecendo a inteligência, a iniciativa e a espontaneidade daquela criança, mas a resposta veio em forma de diagnóstico. Não conheço sua história, nem sei o que o familiar pretendia comunicar. Talvez estivesse apenas compartilhando uma informação importante sobre o filho. O que me chamou a atenção foi perceber como uma definição clínica apareceu numa conversa sobre características que havíamos apreciado.
O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento cujo diagnóstico envolve a avaliação de sintomas persistentes, de seu impacto no funcionamento da pessoa e de diferentes aspectos de sua história. Esse diagnóstico pode ser importante para compreender dificuldades e orientar os cuidados necessários.
Minha questão não é com a existência do diagnóstico, mas com o lugar que ele pode passar a ocupar na maneira como compreendemos alguém. Naquele encontro, vi uma criança comunicativa, criativa e cheia de iniciativa. Não conheço suas dificuldades, nem o papel que o diagnóstico tem em sua vida. E essas qualidades, evidentemente, não contradizem a possibilidade de ela ter TDAH. Mas a situação me fez pensar no quanto precisamos cuidar para que uma informação clínica não se transforme numa explicação sobre tudo o que uma pessoa é.
Gosto de pensar a saúde também a partir daquilo que funciona, dos recursos que uma pessoa desenvolve e das possibilidades que ainda pode construir. Reconhecer um sofrimento não deveria significar fazer dele a principal definição de alguém.
Um diagnóstico e um posicionamento político são coisas muito diferentes. Não pretendo colocá-los no mesmo plano. O que me fez aproximar essas situações foi perceber como uma informação sobre alguém pode ocupar tanto espaço em nossa interpretação que outras características acabam ficando em segundo plano.
O pertencimento aos grupos e nossas convicções
Na política, algo semelhante pode acontecer quando nos identificamos com a esquerda ou com a direita e parece que recebemos, junto com essa identificação, um pacote inteiro de ideias. Discordar de alguma delas pode se tornar motivo de desconfiança, como se reconhecer algo importante no pensamento de outro grupo significasse abandonar nossas próprias convicções.
Freud, em Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicado em 1921, investigou como os vínculos de identificação e os processos de sugestão participam da vida coletiva. Sua reflexão ajuda a pensar por que o pertencimento a um grupo pode exercer tanta influência sobre aquilo que sentimos, defendemos e estamos dispostos a questionar.
Isso não significa que os grupos sejam necessariamente irracionais ou prejudiciais. Eles são fundamentais para a vida em sociedade, para a construção de identidades e para inúmeras conquistas coletivas. Mas o pertencimento também pode tornar mais difícil reconhecer contradições, principalmente quando discordar parece colocar em risco nossa relação com aqueles com quem nos identificamos.
É aí que volto à dificuldade de sustentar nossas próprias convicções sem deixar de examiná-las. Costumamos associar a expressão "ficar em cima do muro" à falta de disposição para assumir uma posição. Mas existe uma diferença entre evitar responsabilidades e construir um pensamento que não depende inteiramente das respostas de um grupo.
Uma pessoa pode ter convicções políticas bastante claras, defender a democracia e os direitos humanos e, ainda assim, questionar ideias defendidas por pessoas com quem se identifica. Isso não significa abandonar suas posições, mas reconhecer que pertencer a um grupo não exige concordância absoluta.
Tenho pensado nisso inclusive diante dos desafios da esquerda brasileira. Como dialogar com quem pensa diferente se qualquer discordância é recebida como sinal de oposição? Quando o debate acontece apenas entre pessoas que já concordam, corremos o risco de ficar cada vez mais preparados para confirmar nossas próprias ideias e menos dispostos a examinar argumentos diferentes.
E ouvir alguém não significa concordar com essa pessoa. Podemos conhecer um argumento e continuar discordando, agora com mais fundamentos, ou perceber algo que ainda não tínhamos considerado. Nos dois casos, existe a possibilidade de ampliar nossa compreensão.
Isso também não significa tratar todas as posições como igualmente fundamentadas ou aceitáveis. Algumas afirmações precisam ser confrontadas com evidências, e determinadas práticas exigem posicionamentos claros. O que estou questionando é a facilidade com que, às vezes, substituímos esse exame por conclusões antecipadas sobre as pessoas.
O espaço para continuar pensando
Na clínica, encontro pessoas que chegam com explicações bastante organizadas sobre quem são, sobre o que conseguem ou não conseguem fazer e sobre os motivos de seu sofrimento. Essas explicações fazem parte de suas histórias e merecem ser escutadas. Mas também podem ser examinadas ao longo do processo, abrindo espaço para aspectos da experiência que ainda não haviam sido considerados.
É algo que procuro exercitar fora do consultório. Tenho minhas convicções, mas não quero que elas me impeçam de aprender, reconhecer um argumento importante ou perceber quando estou simplificando alguma coisa. No fundo, é isso que me interessa tanto na psicologia: a possibilidade de olhar para alguém sem acreditar que já sabemos tudo sobre essa pessoa.
Penso novamente naquela criança. Seu diagnóstico pode ajudar a compreender dificuldades que eu não conheço, mas naquele encontro havia também inteligência, criatividade, iniciativa e tantas outras características que mereciam ser reconhecidas.
Talvez estejamos precisando recuperar um pouco dessa disposição para enxergar além das definições. Ter convicções, assumir posições e defender aquilo que consideramos importante, sem transformar nossas certezas num impedimento para continuar pensando. Porque, quando acreditamos que já temos todas as respostas, dificilmente sobra espaço para uma boa pergunta.
Thais Souza
Psicóloga | CRP 06/153733