Muita gente chega até mim carregando culpa por sentir desejos que conflitam com aquilo que aprenderam ser errado pela religião. E quando esse conflito toca a dimensão da fé, a tendência costuma ser seguir o caminho que parece oferecer mais segurança, que quase sempre é o da repressão, do adiamento e do silêncio.
Afinal, o pouco que sabemos sobre o que nos foi ensinado parece mais seguro do que o desconhecido que há em nós.
Mas… e se pudéssemos nos aproximar um pouco mais desse universo interno?
Entre renúncia e adoecimento
Freud nos ensinou que aquilo que é reprimido não simplesmente desaparece; ele encontra uma via de expressão. E quando essa via não existe, ou quando a gente tenta ignorar o que sente por tempo demais, esse desejo retorna de outras formas: muitas vezes como sintoma, sofrimento ou como algo que escapa ao controle, justamente porque tentou ser sufocado.
Isso não quer dizer, obviamente, que todo desejo precisa ser atendido de imediato ou incondicionalmente. A neurociência mostra, inclusive, o valor de conseguir adiar certas gratificações em nome de algo maior, uma vez que isso também gera resiliência e tolerância à frustração. O próprio Freud chamava isso de princípio de realidade. Ou seja, há força e maturidade nessa capacidade. Mas tudo isso nos conduz à pergunta que realmente importa: até que ponto renunciar fortalece, e a partir de que ponto renunciar adoece?
No contexto cristão, a renúncia da carne é entendida como parte do caminho espiritual, como um exercício de aproximação do Sagrado. Mas existem situações em que, para seguir essa lógica, a pessoa precisa abrir mão de quem ela é, e, nesse ponto, o risco de adoecimento psíquico se torna real. Não é mais apenas um desejo que está sendo controlado; é a identidade que está sendo sufocada.
O que eu tenho percebido ao longo do meu trabalho é que a saída para esse tipo de conflito não está no controle em si, mas na compreensão. Compreender quem se é, o que se sente, o que é desejo e o que é medo disfarçado de virtude. Compreender o quanto certas concessões estão fortalecendo ou, ao contrário, adoecendo a própria existência. E isso não é algo que alguém possa responder de fora para dentro, seja através de um líder religioso, da família, da cultura ou até mesmo por uma profissional.
A resposta final precisa vir de dentro, e portanto esse “dentro” precisa ser investigado.
O grande impasse é que, dentro de muitos contextos religiosos, essa investigação nem sempre é bem-vinda. Pessoas vivendo esse tipo de conflito tendem a se sentir sozinhas porque todos ao redor falam a partir da convicção, e embora a convicção ofereça conforto e segurança de um lado, de outro, uma vez que ela não nasça da experiência interna, pode virar apenas mais uma forma de silenciamento.
Dois caminhos possíveis
Por isso, quando alguém me traz essa pergunta, eu costumo apresentar dois caminhos possíveis… não como respostas prontas, mas como espaços para que a própria pessoa construa as suas.
O primeiro caminho é o da investigação interior, através da análise ou psicoterapia, onde é possível olhar para esses desejos, medos e conflitos com honestidade, sem julgamento, sem alguém dizendo o que é certo ou errado, mas ajudando a pessoa a perceber como ela chega às suas próprias respostas.
O segundo caminho é o da investigação exterior, que é o propósito do Aletheia: um processo de psicoeducação que amplia horizontes, apresenta perspectivas, convida ao questionamento. Não é um manual.. longe disso! Fórmulas prontas já existem demais, tanto nas religiões quanto nos algoritmos. O Aletheia existe justamente para devolver a pergunta para quem realmente importa: você.
No final das contas, eu costumo pensar que existe uma balança na qual de um lado temos tudo o que se relaciona à segurança e de outro à liberdade. Quanto mais nossas decisões estão alinhadas com o lado da segurança, mais nos afastamos da liberdade e consequentemente nos sentimos presos. Por outro lado, quanto mais nos aproximamos do lado da liberdade, menos perdemos referências do que é seguro para nós. É preciso um equilíbrio. Por isso, o ponto não é escolher um lado definitivo, mas perceber a “dança” entre eles. Se hoje o controle está a serviço da convicção, qual é o espaço que sobra para a liberdade? Talvez o caminho esteja justamente em aprender a transitar entre os extremos , encontrando, pouco a pouco, o equilíbrio de quem se reconhece e se autoriza a existir como é.
Se esse texto fez sentido para você, e se você sente que é hora de revisitar suas certezas para descobrir o que liberdade, segurança e equilíbrio significam na sua própria história, entre em contato. 🙂
Thais Souza.